No inicio do último ano da faculdade de Direito comecei a sentir alguns sintomas de febre e muita dor nas costas. Mesmo falando com o médico e tomando remédios para o que parecia ser um resfriado, o mal estar não passava.

Com a persistência dos sintomas fui diagnosticada com pneumonia e após alguns meses de tratamento me assustei com o estado de saúde que se apresentava: a Bete completamente descontrolada, eu mal comia porque vivia enjoada pelos altos índices de glicemia, muito fraca e não conseguia ir às aulas.

Com a ajuda de uma médica clínica geral descobri que na realidade tinha uma infecção urinária e o tratamento adequado finalmente deu fim a uma “montanha russa” que durou quase um ano.

Deste longo período de desequilíbrio da Bete algumas complicações surgiram: várias feridas nas pernas que demoraram muito para cicatrizar e deixaram algumas marcas que sumiram após um tratamento a laser feito por uma dermatologista; retinopatia diabética tratada por um oftalmologista que conheci nesta ocasião e me acompanha até hoje, e a presença de pequenas quantidades de proteína na urina, chamada de microalbuminúria, cuidada pelo meu nefrologista,

Disso tudo compreendi que as consequências de um mau controle da Bete não são percebidas imediatamente, mas, sim, com o passar do tempo. Entendi também que nem sempre temos o comando sobre a tão almejado controle dos níveis de açúcar, pois alguns fatores alheios à nossa  vontade influenciam nos resultados destes níveis glicêmicos, que elevados por um fase de longa duração, resultam  em alguns reveses.

No meu caso, o diagnóstico errado fez com que eu fosse tratada de uma doença que na verdade eu não tinha, e sim outra que durante meses passou despercebida, se assim posso dizer.

Por não ser medicada de maneira apropriada, a Bete acelerou o progresso da doença e foi exatamente o que aconteceu no meu caso.

Enfim, as consequências surgiram, tratei de cada uma delas da melhor forma possível, consultando um especialista para cada complicação que aparecia e com o tempo tudo foi voltando ao normal.

Uma passagem que se tornou um divisor de águas na minha vida, nesta época, foi quando indicaram um tratamento para a retinopatia diabética num hospital público de São Paulo.

Lá eu seria submetida a uma pesquisa, onde tomaria placebo ou a medicação que estava sendo pesquisada para este tipo de problema. Então me deparei com uma triste realidade, o oposto do que eu vivenciava: diabéticos sem condições para se tratar adequadamente e que se sujeitavam a este tipo de estudo/investigação em troca de acompanhamento médico para lidar com a Bete.

Ali tive plena consciência do quanto sou afortunada em ter condições de tratar da Bete da maneira mais adequada, e, em contrapartida, como milhares de diabéticos não tem condições de fazer o mesmo, e encontram-se “jogados a própria sorte”.

Disso fui caminhando, dentro do Direito,  para a área da saúde, entendendo melhor o funcionamento desta engrenagem tão, assustadoramente, mau gerida pelo Estado, tão sofrida por esta comunidade que depende de tratamento diário e sem condições para isso!